quinta-feira, 28 de maio de 2009

Papel


O delizar dos dedos nos teclados, a cabeça a mil, o coração cheio de coisas... Como colocar todos os sentimentos em ordem? Como? Começar com o que? Falar de que? Como é dificil descrever os sentimentos e pensamentos que estão conflitantes dentro de você. Como colocar esse conflito de forma orientada, clara e objetiva?

Começo a escrever uma coisa, a cabeça diz outra e o coração clama por outra... e ai dá ouvidos a quem? Aos dedos que querem escrever sem o menor compromisso, só parar ver o texto crescendo aos poucos? A cabeça que quer racionalizar tudo, dar justificativas, razões e explicações a uma determinada emoção, sensação que estão percorrendo os dedos para serem descritas? Ou ao coração que sente toda aquela emoção e quer apenas retratar a emoção como ela é, até para sentir um repeteco?

É dificil saber qual opção escolher... Você sente necessidade de colocar seus pensamentos em ordem, sabe que o papel aceita tudo... não questiona nada... é um grande amigo, que não fica cobrando, censurando ou acusando o que você tem pra dizer. Você apenas escreve ali os seus pensamentos, emoções, sensações, frustrações, alegrias como você gostaria de falar, sem se preocupar com questionamentos ou opiniões. Ali frente o papel você é apenas você, sua singularidade mais pura e límpida.

Mas mesmo assim hoje não consigo escrever, não consigo ter a minha singularidade... não por preocupação com o papel, mas porque tenho tanta coisa a dizer que no fim das contas não digo nada. É estranho dizer isso, sua cabeça como se tivesse cheia, seu coração transbordando mas na hora de trasformar isso em palavras... as palavras somem! Você não acha as melhores palavras para expressar da melhor maneira as minhas impressões.

Estranho mesmo é dizer que to aqui para não dizer nada, mas querendo dizer tudo. Deixar no papel essa angustia que assola meu peito, a tormenta meu coração e prejudica meus dedos. Só mesmo o papel para receber isso sem questionar. Fica me olhando esperando eu ter coragem para lhe contar as coisas que vão na alma. Ali aberto a todos os meus pensamentos, meus devaneios, minhas certezas e incertezas.

Mas por acaso você já contou uma história ou um caso para uma pessoa que sabe te escultar? Você conta e ela não diz nada, só te olha com olhos amoros e pacientes e quando você assusta, você falou até o que não tinha pra dizer? É um perigo! Mas o engraçado que quando você experimenta esse prazer de contar tudo que lhe vem a alma sem se preocupar com julgamento alheio, é muito bom. Melhor ainda é você olhar o começo do texto e ver quanta surgiu nesse tempo de compartilhar o sentimento com o papel.
Sabe o que então o que é o melhor do papel? Ele é fiel, quando você retornar ao papel vai estar ali seus pensamentos da mesma forma que foi escrito, sem deturpação, sem novas interpretações, somente a sua. O seu ponto de vista, a sua maneira de pensar respeitada, sem trocar uma vírgula. Só a espera do seu reencontro ou o deleite dos leitores que de alguma forma você permitiu compartilhar.
Mas quem nunca começou uma história já imaginando no fim? Ou quando estava terminando lembrou de algo que ficou por fazer? Escrever por mais racional e estruturado que seja, te dá toda a liberdade de fazer, refazer, apagar, mudar, transformar ou simplesmente rasgar e desistir de escrever.

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